Foi o governo americano que criou o termo UFO. Sem trocadilhos. Por isso é engraçado ver pessoas indignadas afirmando que “o governo americano não reconhece os UFOs” quando, entretanto, foi o próprio governo americano que criou o termo usado. Isso resulta da enorme confusão que a mídia, até mesmo a ‘especializada’, gerou. Muitos imaginam que UFO, disco voador e nave extraterrestre são a mesma coisa, o que é similar a dizer que fruta, banana e tomate são a mesma coisa.
Quando o termo UFO foi criado em 1952 pelo capitão Edward Ruppelt, chefe do projeto Bluebook da USAF, sua definição era “‘qualquer’ fenômeno ou objeto aéreo que é desconhecido ou parece fora do comum ao observador ordinário” (USAF reg. 80-17). Essa é uma definição bastante ampla, e qualquer um concordaria que se OVNIs são isso, então OVNIs existem. De fato, de acordo com essa definição eles devem existir, já que está implícito que sua existência deve-se ao fato inexorável de que ‘observadores ordinários’ existem. Foi basicamente isso que os projetos oficiais de pesquisa da USAF procuraram provar e mesmo declararam ter provado.
É preciso assim perceber que o termo "objeto voador não identificado" foi criado pelo governo com uma conclusão em si mesmo, a de que não há nada de extraordinário neles uma vez que não são fenômenos ou objetos realmente desconhecidos, são apenas fenômenos ou objetos conhecidos mas sem registro satisfatório que permita a identificação. Como a idéia é a de que todos OVNIs seriam fruto da incompetência ou ignorância do observador, podemos chamá-la de “Hipótese Incompetente”. É claro, esse termo também embute uma conclusão em si mesmo...
Pode-se provar que a “hipótese incompetente” é falsa. Ela postula claramente que todos fenômenos (e objetos) aéreos observados são conhecidos em última instância pela ciência. É um postulado um tanto insensato: basta encontrar um fenômeno ou objeto aéreo observado que era desconhecido para provar sua falsidade. E um desses fenômenos que apenas recentemente ganhou aceitação científica, mas era relatado há décadas e esteve envolvido em relatos de OVNIs, são os relâmpagos globulares, ou raios-bola. Embora a existência desse fenômeno aéreo tenha sido finalmente reconhecida, ainda não há explicação científica comprovada a ele. Simples assim, a hipótese incompetente falha no fato de que sabemos de pelo menos um fenômeno aéreo que provoca OVNIs e era realmente desconhecido, não se devendo à incompetência dos observadores. Podemos ainda achar diversos exemplos de objetos aéreos humanos que eram desconhecidos pois eram secretos, e que estavam envolvidos em relatos de OVNIs. Mas apenas um exemplo já derruba a hipótese incompetente e suas conseqüências, sendo uma delas a de que nenhum conhecimento novo advirá da pesquisa de OVNIs.
A hipótese incompetente é mesmo anti-científica, embora tenha sido a conclusão de relatórios ditos científicos. É anti-científico postular que a existência de observações anômalas é total e completamente fruto da incompetência dos observadores. Embora as pesquisas da USAF tenham provado que a grande maioria das observações anômalas são de fato resultado da incompetência, da despreparação dos observadores, não conseguiram provar que todas observações o são. E dificilmente conseguiriam, uma vez que a hipótese incompetente é uma negativa: procura-se provar que “fenômenos desconhecidos não existem”.
O que impressiona é que defensores de hipóteses alternativas tenham adotado um termo que, se analisado, está fortemente ligado à hipótese incompetente. É como se os próprios defensores da hipótese incompetente chamassem a hipótese que defendem de... incompetente. A característica do termo UFO designar fenômenos desconhecidos, que é o que os defensores de outras hipóteses procuram definir, embora indique que estes fenômenos são culpa dos observadores, algo que os que não querem enxergar acabam não enxergando, parece arquitetada ou de toda forma muito conveniente. Tanto que até hoje o termo causa confusão por si só, chegando ao ponto em que somos obrigados a usar variantes insólitas como “OVNIs verdadeiros”.
Enfim, parece-me claro que embora o termo OVNI seja bem melhor que “disco voador”, ele não é um termo perfeitamente adequado. Ele foi criado pelo governo com um propósito específico e precisa ser complementado por outro, que admita e até indique a existência de fenômenos realmente desconhecidos a ser descobertos e estudados. Não apenas objetos não-identificados, mas não-identificáveis quando comparados com fenômenos e objetos conhecidos, resultado de observações bem registradas, indicando a descoberta de conhecimento novo, que pode ser uma nave extraterrestre, uma luz terrestre, um fenômeno psicológico pouco conhecido há cinqüenta anos - a síndrome da falsa memória ou mesmo um relâmpago globular.
A minha sugestão é justamente esta: que a UFOlogia trate de objetos voadores não-identificáveis (OVNIs), ao invés de simplesmente tratar de objetos voadores não-identificados (OVNIs). Pois apenas com a descoberta de OVNIs é que a UFOlogia trará conhecimento novo. Descobrir OVNIs só confirma a hipótese incompetente.*
* Mudar o significado de OVNI (objeto voador não-identificado) para OVNI (objeto voador não-identificável) é uma estratégia de propaganda política, que Orwell chamou de newspeak. Em inglês, teríamos simplesmente que devemos procurar por Unidentifiable Flying Objects ao invés de apenas Unidentified Flying Objects.