Passado e Futuro - Ciência e Ufologia


Por Fernando J. M. Walter

 Brasília, DF, 26/01/2002


Embora os objetivos eventualmente tenham mudado no decorrer dos tempos, sempre teve o ser humano o intuito da busca de contacto com as chamadas "entidades superiores" ou deuses.

Muitos dos métodos existentes, objetivando os mencionados contactos, existem desde tempos imemoriais e continuam a ser utilizados: cânticos, drogas alucinógenas e manipulação de objetos, tudo normalmente associado a complexos rituais eventualmente permeados de variados graus de "iniciação aos mistérios". Todos esse métodos encontram-se em contradição, ao menos aparente, em relação aos recursos científicos eventualmente disponíveis e que foram, obviamente, sendo também aperfeiçoados ao longo dos tempos. E por quê?

Existem aqueles que consideram não só o continuado interesse, como também o aumento do número de adeptos dos acima mencionados métodos (particularmente a partir dos anos 1950) como um reflexo das rápidas e constantes mudanças das condições sociais, políticas e econômicas do chamado mundo civilizado. Entendemos que a questão ainda carece de estudos bem mais aprofundados, não sendo assim o objeto do presente texto.

  É fato inquestionável que a passagem do século XIX para o XX trouxe de forma definitiva e marcante a questão dos extraterrestres - modernamente associados em muitos círculos de pesquisadores aos antigos "deuses" -  não só como parte integrante do imaginário popular, mas também das pesquisas científicas (ou pseudocientíficas). Obras literárias como Somnium de Johannes Kepler e Micromegas de Voltaire, nas quais o tema era abordado (embora nesta última sob o ponto de vista mais satírico e político) foram publicadas em épocas nas quais a imprensa ainda não atingia o grande público, porém os textos, dentre outros autores, de H.G. Wells, Julio Verne e mesmo Edgar Rice Burroughs (sua série de livros relatando aventuras em Marte influenciaram Carl Sagan), por exemplo, tiveram, e têm, milhões de leitores. Há que recordarmos também o conhecido caso da brilhante dramatização radiofônica dirigida por Orson Welles da "Guerra dos Mundos" do citado H.G. Wells.

No campo científico, também nos primeiros anos do século XX, Percival Lowell divulgou suas pesquisas altamente controversas sobre Marte (essencialmente vinculadas aos famosos "canais" do planeta vermelho, originalmente sinalizados pelo astrônomo italiano Schiaparelli) e contribuiu ainda mais para o estabelecimento, até os dias de hoje, de toda uma cultura - enfatizamos, que permeou a população leiga e mesmo parte da comunidade científica -  relacionada ao espaço, aos extraterrestres e, logicamente, à interação e  busca de comunicação com esses.

Alguns aspectos da questão "Comunicação com Extraterrestres", bem como alguns fatos considerados atualmente como paradigmas ("verdades inquestionáveis") da Ufologia surgiram, evidentemente, nesse período (fins do século XIX e primeiras décadas do século XX). Por exemplo, o formato típico do "disco voador" atribui-se em geral (erroneamente, aliás) como tendo surgido através do Caso de Kenneth Arnold em 1947 (Monte Rainier, Washington - EUA). 

Observe-se a figura abaixo. Não é a capa de algum fanzine de ficção científica da década de 50, e sim da revista americana Science Wonder Stories de novembro de 1929 (Gernsbach Publications, Inc.). Ou seja, os elementos, a informação visual do "disco voador" já lá estavam presentes. Outro aspecto: os editores ofereciam um prêmio substancial para a melhor história vinculada ao desenho da capa, o que sem dúvida causou a excitação de muitas mentes férteis - afinal, a oportunidade de receber US$ 300.00 em pleno início da Grande Depressão americana não era para ser desperdiçada...


E quanto à questão da comunicação com extraterrestres, no que tange à comunidade científica?

Usualmente, creditam-se as primeiras tentativas de comunicação (pelo menos sob o aspecto teórico das mesmas, utilizando-se o espectro eletromagnético no padrão dos projetos SETI mais convencionais) tendo como base o advento da Radioastronomia, originária das descobertas de Karl Jansky em 1931, as quais permitiram a identificação do "ruído de fundo" produzido pelo núcleo de nossa Galáxia. Porém, a história não começou aí. Nikola Tesla já em 1899 cogitou seriamente sobre a questão da comunicação interestelar, assim como Guglielmo Marconi, o qual publicou no New York Times em 1919 um artigo no qual relatava sua esperança quanto ao futuro papel das ondas de rádio na comunicação com eventuais civilizações extraterrestres.

Os textos de Marconi criaram uma enorme polêmica, e acabaram inspirando um artigo interessantíssimo na edição de março de 1920 da Scientific American ("What Shall We Say to Mars?"), no qual os autores H.W. Nieman e C.W. Nieman sugerem uma forma mais eficiente para a utilização das ondas de radio de Marconi visando a comunicação com os "marcianos".

                                       

                                            

A figura à esquerda, acima, reproduz a sugestão publicada na Scientific American quanto à utilização de tiras de papel, usadas na época em telegrafia, com traços e pontos sendo definidos de forma a, quando plotados em papel adequado, permitirem a definição de figuras (claro que quanto maior a densidade e a quantidade de traços e pontos, mais precisas poderiam ser as figuras). Esses sinais telegráficos, assim codificados, seriam transmitidos para Marte.  

Sem dúvida um curioso precursor dos esforços desenvolvidos pelos pioneiros dos modernos projetos SETI, os quais, quase 40 anos após, utilizaram-se do - em essência semelhante - código binário (já então o alfabeto-base dos computadores)  para enviar a primeira mensagem com informações visuais para estrelas que apresentavam bom potencial para o desenvolvimento de civilizações. A figura acima à direita apresenta, de forma referencial e comparativa, a mensagem em caracteres binários enviada por Frank Drake e Carl Sagan a partir do Radiotelescópio de Arecibo (Porto Rico) em 1974.

Vale também a referência à figura vista na metade inferior da imagem à esquerda, quando comparada com aquelas das placas enviadas junto com as sondas Pioneer 10 e 11, apresentando espécimes humanos (a mão levantada em sinal de saudação em ambas as situações também deve ser ressaltada).

E quanto ao governo americano e suas Forças Armadas? desde quando existe o interesse em civilizações extraterrestres, baseando-se possivelmente em prevenção de ameaças à Segurança Nacional, etc? desde a Segunda Guerra? desde Roswell? Não, certamente. Em 1924, o astrônomo David Todd convenceu a Marinha e o Exército dos Estados Unidos a realizar uma busca de sinais de rádio eventualmente transmitidos a partir de Marte, aproveitando-se de um período de maior proximidade do planeta com a Terra. Embora alguns sinais anômalos tenham sido detectados, os estudos não foram conclusivos - posteriormente essas anomalias foram identificadas como perturbações causadas por radiação ultravioleta emitida pelo Sol.

Na época, claro, teorias de conspiração, acobertamentos e similares não estavam ainda em circulação. E assim, a ilustração abaixo foi candidamente veiculada na revista Radio Age de outubro de 1924, apresentando um membro do Exército Americano ao seu aparelho de rádio tentando identificar sinais vindos de Marte:

 



Um dos pontos que procuramos demonstrar neste artigo é o de que os progressos científicos fazem-se de modo contínuo. Antigas ideias são constantemente aperfeiçoadas, reaproveitadas, ou mesmo descartadas, levando-se em conta o progresso e os recursos técnicos disponíveis em cada período da história. Aqui foram apresentados, de forma bastante resumida, exemplos disso, vinculados ao desejo de comunicação com civilizações extraterrestres, utilizando-se métodos científicos.

O mesmo poderia ser aplicado, claramente, à Ufologia. Muitos fatos que são constantemente associadas a eventos como Roswell, ou a teorias como as dos UFOs nazistas, cover-ups, dentre outros exemplos, na realidade permeiam o imaginário da sociedade desde muito tempo antes do seu estabelecimento "oficial" (seja lá o que isso significar). E mais: seguindo-se o exemplo da ciência, a Ufologia séria e responsável jamais deveria abrir mão da perspectiva histórica; fatos antigos não devem ser descartados como "datados" e "superados" por apressados pesquisadores e eventuais interessados no tema; muito ao contrário, são utilíssimos ao permitir o estabelecimento da gênese do fenômeno. A história contribui com fatos que nos permitem obter a adequada e real perspectiva do processo, e (sem paradoxos) permite que novos conceitos sejam estabelecidos, seja com ideias originais, ou através da quebra de paradigmas impostos pela Ufologia "oficial".

  Éo passado gerando o futuro. Justamente a sua função.


Referências Vinculadas:

The Biological Universe - Steven J. Dick (Cambridge University Press, 1996)

Intelligent Life in the Universe - I.S. Shklovskii e Carl Sagan (Dell Publishing, 1966)


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